Patrística

A Doutrina da União com Cristo: O Elo entre Atanásio e Calvino

Eric Lima

[O artigo abaixo se trata de texto para teste]

A história da teologia cristã é frequentemente lida como uma série de rupturas, onde novos sistemas substituem os antigos em uma marcha linear de progresso ou declínio. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que os momentos de maior vigor intelectual e espiritual da Igreja foram marcados por uma recuperação criativa do passado. João Calvino, o reformador de Genebra, não via sua obra como uma invenção, mas como uma restauração da res catholica — a coisa católica — purificada das inovações medievais. Um dos pontos onde essa conexão brilha com mais intensidade é na doutrina da união com Cristo.

A Herança de Atanásio e a Participação

Para compreendermos a profundidade dessa doutrina, precisamos voltar ao século IV, especificamente à Alexandria de Atanásio. Em sua luta contra o arianismo, Atanásio não estava defendendo apenas uma definição metafísica de Deus, mas a própria possibilidade da salvação. Sua famosa máxima, "Deus se tornou homem para que o homem se tornasse deus", aponta para o conceito de theosis ou deificação.

Para Atanásio, a salvação não era apenas uma transação legal, mas uma participação real na vida divina através do Verbo Encarnado. Essa participação é mediada pela união mística. Se Cristo não é verdadeiramente Deus, Ele não pode nos unir a Deus. Portanto, a união com Cristo em Atanásio é o motor de toda a vida cristã, permitindo que a criatura corruptível participe da imortalidade do Criador.

Calvino e o Vínculo do Espírito

Saltando para o século XVI, encontramos João Calvino articulando o que ele chamava de unio mystica. Embora o contexto da Reforma estivesse saturado de debates sobre a justificação, Calvino insistia que não recebemos os benefícios de Cristo (justificação e santificação) a menos que, primeiro, Cristo se torne nosso e habite em nós.

É aqui que a influência neoplatônica, filtrada por Agostinho e pelos padres gregos, se torna evidente. Calvino propõe que essa união não é uma mera concordância de vontades, nem uma fusão de essências onde a individualidade humana se perde. Em vez disso, é uma união operada pelo Espírito Santo, que atua como o vínculo que nos enxerta no corpo de Cristo. Assim como em Atanásio, a salvação para Calvino envolve uma "participação nos mistérios", onde o crente é alimentado pela própria vida de Cristo, especialmente através da Ceia do Senhor.

O Significado para a Fé Contemporânea

Por que essa discussão é relevante para o púlpito hoje? Em um cenário evangélico frequentemente dividido entre um moralismo seco e um emocionalismo vago, a recuperação da doutrina da união com Cristo oferece uma terceira via. Ela nos lembra que a vida cristã é, essencialmente, uma vida em Cristo.

A espiritualidade reformada, quando fiel às suas raízes patrísticas, não se contenta com uma religião intelectualista. Ela busca a comunhão real com o Cristo vivo. Quando o Dr. Lobão ou qualquer outro ministro proclama a Palavra, ele não está apenas transmitindo informações, mas convidando a comunidade a participar novamente daquele que é a Vida.

Conclusão

Ao olharmos para Atanásio e Calvino, percebemos que a "Ortodoxia Protestante" não é um sistema fechado em si mesmo, mas um ramo que extrai sua seiva das raízes mais profundas da Igreja Primitiva. A união com Cristo permanece como o eixo central onde a teologia se torna adoração e a dogmática se torna vida. É nesse terreno comum que a fé bíblica encontra sua expressão mais robusta: somos salvos não apenas por Cristo, mas em Cristo, participando de Sua justiça, de Sua vida e de Sua glória eterna.

Compartilhe esta Reflexão:

A Doutrina da União com Cristo: O Elo entre Atanásio e Calvino | Isaías Lobão